• Centro de Preservação da Memória

O crime da rua Barão do Rio Branco

Em 25 de fevereiro de 1930, por volta das 9 horas da manhã, Egydio Pilotto, tesoureiro da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, e o guardião Vany Borges, que o acompanhava portando uma maleta com dinheiro e cheques, seguiam a pé pela Rua Barão do Rio Branco, a um quarteirão da estação ferroviária e na direção dos escritórios da empresa, situados há pouca distância dali, quando foram surpreendidos pela investida de um homem de aparência jovem e bem trajado que, a golpes de uma barra de ferro prostrou Vany Borges e arrebatou-lhe a valise de valores, para em seguida correr em direção de um automóvel que o aguardava logo a diante. Apesar da surpresa e da violência da agressão Egydio Pilotto logo se refez e saiu ao encalço do ladrão, tentando recuperar a valise, mas foi contido por disparo de arma de fogo do assaltante, que o atingiu mortalmente na altura do estômago. Também dois circunstantes, Tuffy Elias e João Prosdócimo tentaram deter os ladrões, mas foram impedidos sob ameaça do mesmo revólver e de serem atropelados pelo veículo. Assim, vencidas a resistência das vítimas e dos transeuntes, os criminosos fugiram rapidamente, seguindo pela Rua Pedro Ivo, à esquerda desaparecendo, Vany Borges ficou apenas atordoado por força do golpe, mas Egydio Pilotto, apesar do atendimento imediato que lhe foi prestado, não resistiu ao ferimento e faleceu na madrugada da noite seguinte.

O veículo Chevrolet, cor azul e placa de São José dos Pinhais foi encontrado abandonado horas depois, na confluência das ruas Visconde de Guarapuava e Bento Viana. No carro só a valise despojava do dinheiro, alguns papéis sem importância e o bilro que servira para a agressão do segurança. Na verdade, a tal valise levava 50:000$000 (cinquenta contos) em dinheiro, além de cheques e documentos de valor, resultado do recolhimento que Egydio fazia habitualmente das renas diária das estações como tesoureiro da ferrovia.

Rua Barão do Rio Branco

 

O contexto do crime

A notícia de crime provocou imediata repercussão na opinião pública da cidade. Curitiba era então uma cidade de cerca de 100.000 habitantes e todo o Estado alcançava pouco mais de 1 milhão deles. Elevada a vila em 1693 e adotada oficialmente como capital da nova Província, em julho de 1854, a cidade mesmo assim manteve por muito tempo a feição de uma pequena comunidade rural, até que, à entrada do século XX e sob o influxo da imigração européia que passou a se instalar no Estado, começou a ganhar maior densidade populacional, equipamentos urbanos e expressão política. Na época do crime o país se ressentia também das consequências mais intensas da crise econômica provocada pelo crack da Bolsa de Nova York, acumulando uma superprodução de café, além das dificuldades que passava o Estado com a baixa dos preços da erva no mercado platino. Além dessas dificuldades maiores estavam marcadas as eleições gerais para primeiro de março imediato, aguardadas com expectativa nacional. E, para dar mais o tempero a esse clima geral de expectativas e apreensões, os folguedos do carnaval estavam anunciados para os dias que se seguem às eleições.

Foi dentro deste contexto geral do local que se deu o crime, tendo por cenário uma via pública central da cidade e sua exposição à luz do dia, ocasião em que perdeu a vida brutalmente o tesoureiro da empresa ferroviária, conhecido e respeitado homem de bem da cidade. Egydio Pilotto tinha então 53 anos e era tronco de promissora descendência, constituída pelos filhos Osvaldo, Valfrido, Raul, Mario, Luis, Olívia e Alice, destinados a ocupar lugar de destaque nas letras, profissões liberais e ensino público do Estado.

Os desatinos da polícia

A natureza do crime e a pessoa da vítima, respeitável chefe de família e funcionário exemplar da ferrovia, reclamaram imediatas providências da polícia e da imprensa local, que se puseram a campo para dar resposta à reação natural e à curiosidade da população curitibana. Mas nesse afã de mostrar eficiência a policia acabou dando por paus e pedras, como alertou a própria imprensa diária, prendendo as pessoas pela mais banal suspeita, como ocorreu, de imediato ao crime, com os 3 sírios que se dirigiam de automóvel a Cachoeirinha, um bairro próximo de Colombo, ou com o jovem Flávio Braga, filho do inspetor de rendas estaduais, conduzido preso de sua casa ao Comissariado de Investigações, e solto só após prestar declarações que o isentavam de culpa. O pior, porém, aconteceu com Vany Borges, o segurança da vítima. Sobre ele recaíram as primeiras suspeitas de que pudesse ser cúmplice do crime. Assim é que, restabelecido da agressão, a companhia lhe concedeu férias, a pedido, que, para conveniência da investigação policial seriam oportunas para constatar se o suspeito dispunha realmente do bom dinheiro do roubo. Conta, então, Valêncio Xavier que a essa altura surgiu um delegado truculento que, disposto a arrancar a confissão de sua cumplicidade no crime, mesmo a tour de force submeteu-o a uma rigorosa sessão de tortura que, se não logrou comprovar sua cumplicidade no crime, acabou de produzir-lhe graves sequelas físicas e morais, “a ponto de deixá-lo doente, quase imprestável”. 

Porém, apesar do empenho das autoridades policiais e mesmo de suas demasias, o trabalho de investigação policial não fazia progresso, passado já um ano do crime, enquanto chegava de Porto Alegre, a notícia de que em 22 de janeiro daquele novo ano ocorrera crime semelhante naquela cidade, no lugar conhecido por Caminho Novo, ocasião em que foi morto o guarda ferroviário José Goulart Sant’ Ana, da estrada de ferro local, ao tentar conter dois assaltantes armados que, após ferirem gravemente Artur Fonseca, inspetor da Viação Férrea, subtraíram cerca de $135.000,00 (em dinheiro, cheques e vales), que o mesmo levava em mãos numa valise. Um crime que por motivação e circunstâncias (modus operandi) denunciava a autoria dos mesmos assaltantes. A propósito a Gazeta do Povo tirou naquela data longa matéria sobre crime, ressaltando as qualidades pessoais da vítima e lamentando que o bárbaro delito ainda permanecesse sem solução e os criminosos desconhecidos e impunes.

De repente cai o véu

Seja por coincidência ou o resultado da reportagem da imprensa, poucos dias depois, chegava à polícia, através de um jovem de nossa cidade, a denúncia de uma mulher apontando os estrangeiros João Hans Papst Filho e Rodolfo Kindermann, moradores do sobrado da Avenida Sete de Setembro n. 90, da cidade, como os verdadeiros autores do crime que a polícia procurava desvendar. Tratava-se de Martha Schmedeck, jovem sueca, amante de Kindermann, com quem vivia e de quem ouvira a confissão de que Papst e ele foram autores tanto do crime de Egydio Pilotto, bem como o que ocorreu em Porto Alegre no ano seguinte, e ainda tinham plano de assaltar o Banco do Brasil na próxima semana, ou na outra. Para chegar a polícia a jovem se servira de outro amante, um moço da cidade cujo nome ficou oculto, e para chegar à autoridade policial usou do subterfúgio de uma pretendida viagem a São Paulo, para a qual se despediu dos parceiros; dissimulou, mas não a fez. Foi delatar o crime à polícia. 

De posse dessa revelação, de imediato foi organizada uma forte operação policial, que procedeu ao cerco do local e ao assédio da residência, onde foram os criminosos colhidos de surpresa e presos, sem maior resistência. Com eles foi encontrada farta quantidade de armamentos e munição de diferentes calibres, bem como apetrechos próprios para roubo, como luvas, um lenço preto de algodão e uma cinta de pano branco, com divisões, próprias para conduzir dinheiro sob a camisa, além de uma parte do dinheiro e a transferência bancária de valores e outros objetos suspeitos. A princípio os facínoras alegaram inocência, mas, mediante habilidade na condução de um exaustivo interrogatório na Cada de Detenção, e a colaboração de Martha, Papst acabou confessando todo o episódio de Curitiba e ainda o de Porto alegre, cometidos pela dupla. O dinheiro que ainda havia foi o que sobrou das duas apostas na loteria. Kindermann, pelo contrário, manteve-se inabalável: - “não digo nada, nem direi. Se acharem que sou culpado então me condenem a 30 anos, e não me perguntem nada!”, foi só o que disse e se calou.

A revolta do presídio

Reunida a prova preliminar e instaurado o inquérito, ambos os criminosos foram encaminhados à Prisão do Ahú. Foi esta primeira penitenciária do Estado. Construída em 1903, para instalar o Hospital Nossa Senhora de Lurdes, destinado ao acolhimento de alienados. Em 1905 o hospital foi transferido para a região do Prado Velho e o Ahú transformado em prisão provisória. 
Porém, logo que instalados no presídio, nem dois meses depois, a dupla homicida já se viu envolvida numa violenta revolta interna, que transformou a prisão num verdadeiro teatro de guerra. Na manhã de 17 de maio, por volta das 6 horas, os detentos de uma das alas do presídio, se levantaram em armas, incitados por Papst Filho que, armado de um tosco punhal (que ele mesmo produzira), prostrou pelas costas o guarda da entrada do presídio, bradando aos companheiros de cela: - “Avançar que chegou a hora”... A este brado, cerca de 40 deles saltaram armados de barra de ferro, cacete, facas e um malho de madeira de cerca de 10 quilos, e se precipitaram para o pátio, e m direção ao alojamento dos praças, atrás de armas e munições. Os militares ainda dormiam e dois deles, entregues a sono solto, na entrada do alojamento, foram logo abatidos sumariamente, com sucessivos golpes de faca, e os outros, sobressaltados pelo tumulto, empenharam-se numa luta desesperada de vida e morte contra a horda assassina. Ainda um magote deles desgarrou-se do grupo por um terreno fronteiro, com destino à residência do Ten. Estácio dos Santos, atrás de mais armas. Ocorre que o Tenente já fora despertado pelo tumulto e os disparos das armas de fogo, armando-se e a seu filho Jorge dos Santos. Este, um militar muito jovem, seguindo a orientação do pai e armado de fuzil, postou-se num ângulo favorável, por detrás da casa, e de lá passou a disparar contra o assédio do grupo e dos que tentavam evadir-se do presídio, lembrando que derrubou um deles com um tiro na perna, quando tentava saltar o muro externo. No entrevero, porém, Kindermann fora atingido por um disparo do Ten. Estácio, apresentando um pequeno ferimento “no vazio, do lado esquerdo, pouco abaixo do pulmão”, mas, embora sem maior gravidade, ao ver o companheiro ferido, seu parceiro Papst, embora a essa altura já tivesse alcançando a saída do presídio, ileso e armado de revólver, desistiu da fuga e se entregou às forças da repressão, e, ainda, ao rever o amigo e ouvir do enfermeiro a confirmação de que a ferida não tinha maior gravidade, exclamou comovido: “Graças a Deus!”... 

Após a refrega, que teria durado não mais do que 30 minutos, os presos dominados foram recolhidos ao presídio e os feridos levados para a Santa Casa a fim de receberem cuidados médicos (mais de 20 pessoas ficaram feridas); os falecidos confiados a seus familiares. Os soldados mortos foram conservados em câmara ardente no quartel da Força Militar do Estado e o enterro realizado no dia seguinte, com homenagens militares. Para a perseguição dos evadidos (cerca de 1 deles), organizou-se uma escolta de captura, formada de militares e policiais civis, que logo deu conta de algumas prisões. E então a vida do presídio foi restituída à sua normalidade.

Os revoltosos viram artistas de cinema

A sublevação do presídio repercutiu por toda a cidade e a notícia do morticínio criaram um estado de grande apreensão e exaltação entre a população da capital. Principalmente porque envolvia a presença dos famigerados homicidas de Egydio Pilotto. A imprensa deu cobertura completa sobre todo o episódio, com relato, fotos e entrevistas. O próprio interventor, General Mário Tourinho, acompanhado do Chefe de Polícia, Dr. Jurandir Guimarães, logo à tarde se deslocaram até o presídio onde ouviram as versões do episódio e jantaram com a direção. 
A revolta ocorreu num domingo, dia 17 de maio, mas já na quarta-feira seguinte João Batista Groff, cinegrafista e proprietário da Groff Filmes, passou a exibir no Cine Palácio um amplo documentário cinematográfico sobre a revolta do Presídio do Ahú, em que ao lado do registro do confronto armado e cenas de vandalismo, os personagens centrais que ocuparam as cenas principais foram João Papst, Rodolfo Kindermann e Martha Schmedeke. Foi um furo cinematográfico e um sucesso de público. Na verdade, o cinema já despertara para o Brasil desde 1910, com os documentários regionalistas de Annibal Requião, José Cleto, Wlademir Kozak. O mesmo Groff já se consagrara anteriormente com o documentário ufanista Pátria Grande (1930), registrando episódios da revolução de 30.

Um criminoso empedernido

Durante toda a vida carcerária Rodolfo Kindermann sempre se mostrou duro e inflexível. Embora conduzido com habilidade pelo delegado Miguel Zacarias, João Papst confessou com facilidade os detalhes dos dois crimes: de Curitiba e Porto Alegre. Kindermann negou-se sempre e sempre assumiu postura arrogante e impenetrável a todo assédio da investigação policial. Negou que participara da revolta do presídio, mesmo quando Papst confessou sua participação e elogiou o “desprendimento” do amigo em tentar “libertar” os companheiros de infortúnio. O ferimento que apresentava não lhe tirou a aparente calma e indiferença demonstrava durante a entrevista com os jornalistas. Deixou mostrar, porém, em nota isolada, um traço de sensibilidade que surpreendeu o próprio repórter. Pregado na parede do cubículo havia um desenho grande, do próprio punho de Kindermann, em que ele se retratava vestido de presidiário, e abraçado a Martha. Em volta do desenho havia uma corrente de ferro, e um cadeado, embaixo, com uma frase em alemão, que, traduzida, celebrava o epílogo do seu amor. Na verdade, Kindermann foi sempre rebelde à vida carcerária e sua maneira de reagir à prisão era se fechar a tudo e ostentar indiferença. Vivia engendrando, porém, toda forma de se livrar do cárcere. Certa feita foram encontradas duas cartas em alemão no cós de sua calça, com as quais mantinha correspondência fora do presídio, pedindo uma faca. Outra vez surpreenderam uma faca e uma serra no cós de outra calça. E ainda se soube que chegou a planejar sua fuga atirando pimenta nos olhos dos guardas, para cegá-los. Criaram-se tantas versões de seus planos de fuga que amigos e membros da colônia alemã chegaram a coletar dinheiro com o qual Martha foi mandada de volta para a Alemanha, para garantida de sua segurança.

O crime vira romance folhetim

As proezas de Papst e Kindermann empolgaram tanto a imaginação popular da cidade, que dois jovens Osvaldo Almeida Pereira e Ivo Silva, do então Centro Literário Novo Cenáculo, de Curitiba, tiraram a esse tempo um livro de gosto popular: “As Façanhas de Papst e Kindermann”, editado pelo gráfica “As Cruzadas” de nossa cidade. Serviram-se dos mesmos protagonistas e dos traços principais do episódio criminoso, mas lhe imprimiram um trato romanesco, em que Kindermann é moço nobre e amoroso, vítima de um destino injusto e a autoria do crime é transferida a um vulto surpreendente, uma espécie e daemon ex machina, que no momento culminante salta das trevas vestido de preto e arrebata a valise da vítima, no mesmo momento em que Kindermann e Papst ensaiavam o assalto. Mas, não fica assim o sucesso do ladrão mascarado, porque nossos heróis partem a seu encalço e recuperam a maleta de dinheiro em outro lance à Rocambole, e então se safam seguros. Marta tem nome e os olhos de uma lembrança de amor perdida por Kindermann na Alemanha da sua infância, mas, infelizmente “sua alma era feminina e, por isso, frívola, inconstante e tirânica” (pág. 148). Para explicar o latrocínio contra Arthur Fonseca em Porto Alegre, os nossos noveleiros criam outros personagens e situações que igualmente levavam à isenção de culpa dos nossos acusados. E assim se encerra o romancete em clima de geral confraternização, com o casamento de Rodolfo Kindermann com a bela Gabriela, que outra não era que a filha do homem de quem seu noivo fora acusado de tentar assassiná-lo no crime do chamado “Caminho Novo”, na capital gaúcha. Papst foi um dos padrinhos do feliz consórcio, que assim, entre rios e promessas de felicidade, acabou por mandar às favas o que realmente sucedeu com o processo e com o destino de ambos os facínoras, por fim condenados à prisão pelo tempo que ainda lhes restava de vida.

Dos julgamentos do júri

A despeito dos esforços, não logramos localizar os autos originais do respectivo processo criminal, para levar avante a avaliação da prova e o desfecho de ambos os crimes. Debalde foi feito um levantamento do que ainda restava dos processos findos dos arquivos do Tribunal do Júri da capital. Infelizmente só agora se cuida neste país da memória histórica, principalmente por suas fontes primárias. Assim, o que temos dos julgamentos do Júri da capital e de Porto Alegre são notícias parciais e notas avulsas, como as de que Pabst garantiu sua absolvição, embora por vantagem mínima, encerrando desse modo o último capítulo da tragédia “Papst e Kindermann”, que tirou vidas úteis e inocentes, produziu muitas dores e deixou saudades de amigos e familiares, mas, passado já muito tempo, a cidade naturalmente esqueceu... 

Rui Cavallin Pinto (2010)

 

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