• Centro de Preservação da Memória

O promotor de Justiça que queria ser político

Valdecir Guidini de Morais
Publicação: 27/09/2021

Da Comarca de Paranacity, em 1986, fui promovido à Promotoria de Justiça de entrância intermediária da Comarca de Paranavaí. A vaga foi muito disputada, pois era pelo critério de merecimento. Quem não conseguisse Paranavaí, estaria sujeito a ser promovido para Goioerê ou Capanema. Nada contra essas Comarcas, mas, àquela época, ambas eram consideradas de difícil acesso. Quando pleiteava o “merecimento” acabei mantendo contato com vários integrantes da cúpula do Ministério Público, todos probos e respeitáveis.

Nessa época, se avizinhava a eleição para composição dos integrantes do Congresso Nacional, os quais teriam como incumbência precípua, a elaboração de uma Nova Constituição (Constituição cidadã de 1988 – hoje em vigor – conforme a definiu o saudoso Ullysses Guimarães). Portanto, aqueles que lograssem sucesso na eleição, pelo sufrágio popular, formariam o seleto grupo de Constituintes. Logo, estariam integrando a Assembleia Nacional Constituinte. Desnecessário dizer que a eleição seria concorridíssima. E, um daqueles integrantes da cúpula do MP – que me apoiou e confiou-me o voto – candidatou-se a deputado federal. Eu me senti na obrigação de apoiá-lo, mas como promotor de Justiça (de Paranavaí) – embora não estivesse afeto à Promotoria Eleitoral – fiquei, digamos: “em cima do muro”.

Já na Comarca de Paranacity, fiquei mais à vontade, pois já tinha me desvinculado daquela terra de gente boa, ordeira e trabalhadora. Arregacei as mangas e passei a “trabalhar”, mesmo que veladamente (em Paranavaí); e mais explicitamente em Maringá, Paranacity e região. Só que – talvez por falta de experiência política – fui me apaixonando pela campanha do candidato, chegando até mesmo a mandar confeccionar adesivos, panfletos e camisetas. Primeiro, porque ele tinha confiado em mim quando da promoção; mas, principalmente, porque ele era muito competente; conhecia – como ninguém – a matéria constitucional; era (porque já falecido) probo e honesto. Enfim, necessitávamos que os integrantes da Assembleia Nacional Constituinte fossem pessoas de boa estirpe. O candidato, já em plena campanha, disse-me que já havia feito comícios em várias cidades, na região, e que eu deveria ficar encarregado de organizar o seu comício em Paranacity.

Fui à luta. Providenciei o alvará (na Prefeitura, na polícia, no meio ambiente, etc). Contratei um caminhão (com som); e um apresentador. Convidei o senhor prefeito – que não pôde comparecer, porque apoiava outro candidato do seu partido – e tudo mais. Só que me esqueci da atração musical. E, comício, sem ser “showmício” – à época – era duvidoso contar com um bom público. Chegou o grande dia, o candidato veio de Curitiba à Maringá (de ônibus). Fui buscá-lo na Rodoviária, e logo seguimos à Paranacity. Lá, há muitos anos, ele tinha sido promotor substituto. Na viagem, contou-me que gostaria de receber o apoio dos “amigos” daquela época. Só que, na medida em que ele ia relacionando essas pessoas, eu falava: “este já morreu”. O outro: “já faleceu”. Mais um: “este já se foi”; este foi à óbito”. “Tombou”; “virou pó”, etc. Chegamos à cidade, por volta das 17h30min; e após alguns contatos (no bar da esquina mesmo) – porque ali não tínhamos apoio de ninguém – considerando que o partido dele era pequeno (não me lembro qual); e logo que anoiteceu começou o comício. Tinha mais gente em cima do caminhão, do que na plateia, mais ou menos assim: seis pessoas sobre o caminhão e cinco assistindo. Penalizado, e também sentindo-me “culpado” pela falta de “quorum”, dirigi-me ao referido bar da esquina e “convoquei” os frequentadores do local, dizendo que quem assistisse o comício – mesmo sem a atração musical – estaria convidado a tomar umas cervejas que o candidato iria patrocinar. Todos que estavam no local – aproximadamente vinte pessoas, que eram trabalhadores no corte de cana – aderiram ao convite e foram prontamente ao local do comício.

Nesse momento, daquelas cinco pessoas que momentos antes ali se encontravam, três já tinham ido embora. Os discursos foram acalorados, pois, além do candidato que era um excelente orador (o qual, no entanto, falou por último); os outros – igualmente promotores, da região – também eram muito bons. Chegou o momento culminante daquele “grande comício”. O apresentador – um rábula de jornalista local – anunciou que daria a palavra ao futuro deputado federal, que estaria, em pouco tempo, nos representando na Assembleia Nacional Constituinte. O candidato, inicialmente, saudou os presentes e começou a falar. Falou sobre direito (em geral); direito constitucional; sobre os deveres e direitos dos cidadãos; êxodo rural; controle da natalidade, etc. Enfim, falou bem e muito bonito, mas foi prolixo. Principalmente, considerando que um por um, dos ouvintes (aqueles da cerveja), na medida em que ele falava, foram deixando o local. Quando o orador já estava na fase de peroração, o único que permaneceu foi o “zé baiano” – que já estava embriagado. Ele, montando em sua bicicleta, pronto para sair, disse: “pare de falar, seu gordo mentiroso, vamos tomar as cervejas que você prometeu”. Nosso estimado candidato, educadamente sorriu, e disse: “realmente, você está bêbado, mas tem toda razão”. Em seguida, efetivamente, fomos todos fazer o que devíamos bem antes ter feito, ou seja, tomar cervejas.

Consta que o promotor não se elegeu, infelizmente, mas foi muito bem votado. Em Paranacity, entretanto, nem tanto (rimou).

Recomendar esta página via e-mail:
Captcha Image Carregar outra imagem