• Centro de Preservação da Memória

O corregedor da Justiça e o promotor que gostava de imitá-lo

Valdecir Guidini de Morais
Publicação: 11/02/2021

Em 1986, quando promotor de Justiça em exercício na comarca de Paranavaí, os juízes daquela sede, com muita honra, receberam a visita de um desembargador-corregedor, o qual – juntamente com sua equipe de trabalho – realizou correição na comarca durante três dias. Ao término da correição – que significa uma fiscalização, digamos –, tendo em vista a normalidade das atividades, constatando-se excelente produtividade, os magistrados e familiares resolveram fazer uma confraternização na casa de uma juíza.

Estranhamente, dos quatro promotores da comarca, somente eu fui convidado para a festa. Os juízes justificaram o convite, sob a alegação de que eu tinha atribuição de coordenador de um grupo de estudos da comarca. Perguntei aos juízes se sua excelência o desembargador – que tinha uma voz forte e marcante, o qual eu gostava de imitar – estaria presente na festa. Responderam-me que não, pois ele já tinha retornado à capital do Estado.

Lá compareci e fui muito bem recebido, tendo, logo na entrada, o garçom já me servido um “whisky” (dos bons, em dose dupla, com gelo de água de coco). Eu, sinceramente, estava muito desconfiado daquela generosidade. Não deu tempo nem mesmo de cumprimentar os presentes, quando um juiz (que recentemente foi presidente do Tribunal de Justiça) pediu-me que imitasse o desembargador-corregedor. Não me fiz de rogado. Pensei que na condição de único promotor presente na festa não podia decepcionar os meus anfitriões.

Passei a declamar, contar histórias do desembargador. Enfim, até relembrei que quando iniciei a carreira, sendo promotor substituto (em 1980), ele era o procurador-geral de Justiça (o qual foi guindado à magistratura pelo quinto Constitucional). Este mesmo desembargador foi o procurador que me deu posse em 1980. Sempre – quando procurava imitá-lo – destacava a sua voz forte, tipo carioca, com bastante ênfase no “r”. Só que após alguns minutos de imitação (e os juízes e demais pessoas presentes estavam adorando), eis que surgiu de trás de uma coluna, na área perto da churrasqueira, o próprio desembargador que eu imitava. Quase desmaiei! Pois ele tinha ouvido, de “camarote”, no local em que estava escondido, toda a minha “palhaçada”. Mas, pensei, agora não posso esmorecer, e fiz-lhe uma saudação, com o tom de sua própria voz. Contei-lhe “histórias” que antes ele mesmo tinha contado aos seus discípulos.

Promotor imitando o corregedor-geral | Ilustração do autor

 

Lembro-me de uma: certa feita, em uma solenidade no auditório Castelo Branco, em Curitiba, já no encerramento, alguém estava a homenageá-lo, enquanto que ele cochilava. Um juiz (que representava a Associação dos Magistrados) chamou-lhe a atenção, dizendo: "desembargador, o senhor está sendo homenageado e está dormindo!”. O qual, sem pestanejar, mas ainda sonolento, disparou: “meu caro e dileto colega magistrado, não estou dormindo! Estou cá com meus botões pensando no futuro da nossa magistratura”.

Relembrei que quando iniciei a carreira, fui cumprimentá-lo no seu gabinete, dizendo que estava à disposição e com vontade de trabalhar. Ele, em seguida, agradeceu e deu-me um “prêmio”, designando-me para atender três comarcas no sudoeste do Estado, e disse: “vou designá-lo, já que está disposto a trabalhar, meu jovem mancebo, para atender as comarcas contíguas de Dois Vizinhos, Barracão e a ‘bela’ Realeza. Siga a estes ‘paraísos’ meu caro e novel promotor, e, no mais, quero que a terra o coma”. E “quase” comeu mesmo! Mas, sempre fui e serei um eterno admirador deste homem íntegro e respeitado – que galgou todos os degraus do Ministério Público e da Magistratura.

Quando ele se referia à sua mulher, dizia com lhaneza, sabedoria dos sábios que lhe era (era, porque já falecido) peculiar, sempre explicitando o grande amor que a ela devotava: “minha querida esposa, lembro-me quando nós, de mãos dadas, passeávamos sob os arvoredos da bela Pitanga. Posso dizer-lhe, meu amor, que sem você sou um pássaro preso em uma gaiola, ou solto, mas sem asas para voar. Sem você, querida, sou um peixe, porém fora da água, ou mesmo na água, sem as nadadeiras para nadar”.

O ilustre desembargador, quando saiu de trás da pilastra, disse-me, com sua voz estridente e marcante: “meu caro promotor Guidini. Já tive notícias de que você gosta de me imitar, mas fiquei deveras surpreso, pois não sabia que o fazia tão bem”. “Desafio, portanto, a você para declamarmos poesias, contos e parábolas.” Em seguida, ele falava uma e eu declamava outra. Confesso que utilizei-me de todo o meu “repertório”, sendo que até o grande poeta Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, foi, por várias vezes citado. 

Chegou o momento em que pedi (por falta de recursos literários) o encerramento do desafio. Mas, ao concluí-lo, aproveitei o ensejo, e fiz-lhe uma merecida homenagem (ainda com o tom de sua própria voz), o qual ficou deveras comovido e emocionado, dando-lhe, em seguida, um forte e afetuoso abraço, como prova de que fui e sempre serei o seu eterno admirador.

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