• Centro de Preservação da Memória

O promotor e o seu “pródigo” porta-malas

Valdecir Guidini de Morais
Publicação: 01/12/2020

Tenho um amigo e inolvidável colega promotor de Justiça, já aposentado, que sempre teve dificuldade em se adaptar à tecnologia e à modernidade. Ele, até hoje, pesca com molinetes, pois alega que não consegue se adaptar à carretilha, considerando que, quando do arremesso, “faz cabeleira”, ou seja, a linha fica embolada e “dá imbróglio”!

Igualmente, até hoje, faz uso da máquina de escrever manual, detestando o computador. Diz que demorou muito para aprender a datilografia e quando aprendeu, na máquina manual, já chegou no mercado a máquina elétrica (aquela de esfera-IBM). Com muito custo, adaptou-se a esta e, logo, logo, já surgiu o computador. Celular, só usa como telefone. Abomina outras funções!

Mas, embora astuto e inteligente, o que mais me chamou a atenção era a “bagunça” e o excesso de “coisas” que ele trazia no porta-malas do seu veículo. Lá tinha de tudo, principalmente tralha de pesca, menos as modernas carretilhas. Certa feita, estávamos à beira do Paranazão, em Rosana-SP, fazendo um frango caipira, já tarde da noite, e alguém bradou: “frango caipira combina com polenta, mas não compramos o fubá”. Pois não é que ele – com aquela “desorganização” homérica – disse que no porta-malas do seu veículo devia ter um pacote antigo de “fubá Arapongas”? E não é que tinha mesmo! Só que o fubá tinha rasgado o saco e estava vencido, sendo que um revólver dele, marca “Taurus”, calibre 38 – que há anos tinha desaparecido – estava ali jogado e misturado no meio do fubá. Pasmem! Mas, como se diz vox populis: “se não tem tu, vai tu mesmo”. E o fubá vencido, após retirados os carunchos, rendeu uma saborosa polenta, com arroz e frango caipira.

Ele ficou com esse carro, que era um Monza verde, com porta-malas bem grande, por muitos anos. Certa feita, precisou trocar um pneu, sendo que eu o ajudei a retirar o estepe, o qual estava sob suas “coisas”. Nunca vi tanta tralha de pesca e coisas vencidas. Tinha até chocolate derretido, misturado em uma caixa de ovos de 30 unidades (aquela quadrada), cuja data de validade já tinha feito vários aniversários. Os ovos, depois de muito atrito, foram, felizmente, jogados aos lagartos. Mas, afora essa desorganização, no geral, ele era – e é, pois, está bem vivo entre nós – uma pessoa queridíssima e competente. No seu mister de promotor era exemplar. Para citar apenas um caso concreto, nos idos de 1990, um político local foi processado, sob acusação de ter “surrupiado” uma pequena quantia dos cofres públicos. Ele, no seu parecer, pediu o arquivamento do inquérito, alegando que efetivamente acreditava nas palavras do acusado, ou seja, que o mesmo não tinha cometido aquele crime, asseverando: “pois, pelo que eu conheço a sede desse “caboclo”, se ele tivesse efetivamente praticado tal desvio, por certo, não o faria em um valor tão ínfimo e insignificante”. Ao mesmo, embora no anonimato, rendemos as nossas sinceras homenagens, pois, com ele, muito aprendemos – e continuaremos apreendendo –, o qual, é sempre lembrado, citado e reverenciado nos momentos nostálgicos, vivenciados por todos nós, durante décadas, no saudoso Clube da Justiça de Maringá.

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