• Centro de Preservação da Memória

"Pinga ni mim!"

Valdecir Guidini de Morais
Publicação: 18/11/2020

Tenho insistentemente asseverado que o Ministério Público, e a Magistratura, e até mesmo a Advocacia, de antanho, tinham mais romantismo, pois nada era virtual ou digitalizado. Os processos eram integralmente físicos, e o advogado, e também o Promotor, precisavam, para acompanhá-lo, encostar o seu umbigo no balcão do Cartório. Apesar dessa época áurea, devemos reconhecer, também, que o sistema atual é bem mais prático e objetiva à eficácia e à celeridade. Pena que nem todos, hoje em dia, leem às causas, pois apenas “navegam” na Internet!

Tendo como foco e a questão pontual esse “romantismo” de antigamente, lembro-me que no início da minha carreira, no ano 1981 – pois tomei posse em 28.12.1980 –, ainda como promotor substituto da 28ª Secção Judiciária, com sede em Cianorte e, como curial, neófito e inexperiente – como diria o saudoso procurador de Justiça e desembargador Henrique Chesneau Lenz César – um jovem mancebo! Tive a felicidade – ou a infelicidade – de ser submetido, coincidentemente, em apenas um ano, a 4 (quatro) correições. Naquela época, o Corregedor – e sua “equipe”, composta de apenas um assessor e um motorista – surgiam do nada, sem avisar, de chofre! Normalmente, saíam de Curitiba no domingo de madrugada, e no mesmo dia, no crepúsculo, já estavam na Comarca, passando, incontinenti, a “investigar” a conduta do agente do "Parquet" (obs.: aos leigos, denominação antiga, do promotor, na França). Queriam saber, inclusive, se o promotor estava na Comarca; se morava em casa própria, alugada, em moradia do Estado ou hotel. Interessante é que, naquela época, morávamos, normalmente (pasmem!!!), em casas cedidas pela Prefeitura, pelo Estado, ou o alcaide Municipal pagava o nosso aluguel. E, ainda bem que não existia a rigorosa lei de improbidade administrativa!!! Mas, isso era normal, porquanto o nosso subsídio era muito pouco. Não tínhamos auxílio moradia; subsídio pelo atendimento eleitoral; nem terço de férias, e para complementar o nosso ganho, podíamos inclusive “advogar” em alguns casos, mormente em favor do Estado e da União, em executivos fiscais, com percepção de honorários advocatícios. Interessante é que éramos parte, e custos legis (fiscal da lei) ao mesmo tempo, sendo que, às vezes, ganhávamos mais nos executivos fiscais do que com relação ao próprio salário.

Conheço um caso, na Comarca de Paranacity (tinha que ser Paranacity!!!), que um Promotor – já antigo na carreira – ingressou com uma ação, e depois, como custos legis, deu o parecer contra!!! Pois bem! Essas correições, digamos, sistemáticas, me intrigavam. Eu perguntava para mim mesmo: será que estou sendo “perseguido” e não querem que eu conclua o estágio probatório (obs.: depois de dois anos de estágio probatório, havia efetividade na carreira, a vitaliciedade)? Mas, tudo não passava de ledo engano! Mera coincidência! Ocorre que, a Corregedoria vinha para uma região, e, considerando que eu era o promotor substituto daquela secção judiciária, ou, designado em outra, deparava-me com os meus “algozes”. Porém, não era só tristeza. Tristeza, porque o senhor CORREGEDOR, CORREGEDOR sim, com letras maiúsculas, fiscalizava mesmo, e não era por amostragem. Ele tinha acesso a todos os processos da Comarca – criminais e cíveis, estes, com intervenção ministerial. Examinava minudentemente a todos, carimbava e assinava, um por um: “vistos em correição”. Depois – eu acho que até hoje é assim –, vinha o relatório confidencial, “com os puxões de orelha”.

Fui “vítima” dessas correições, em menos de um ano, nas Comarcas de Cianorte, Peabiru, Cruzeiro do Oeste e na “paradisíaca” Paranacity. O nosso Corregedor da época, era muito SEVERO e AUSTERO (e tinha o nome muito parecido com esses adjetivos), mas, eu sabia que ele gostava de tocar sanfona. Sendo assim, com muito jeito – para não melindrá-lo –, sempre falava: “Excelência! Concluída a correição, e independentemente do seu resultado, que é confidencial, gostaria de programar uma confraternização. Concorda?”. Ele sorridente, sempre concordava e ficava feliz, porquanto, apesar da sua austeridade, era um homem bom, que amava a vida, sua família e o Ministério Público. Assim é que, por pura vaidade, nunca aceitou ser desembargador e integrar para acesso a qualquer outro posto, o quinto constitucional, tendo falecido recentemente – em 17 de janeiro de 2018, com 89 anos de idade – como procurador de Justiça aposentado.

Felizmente, tive bons conceitos nessas correições itinerantes, e acabei, inclusive, ficando amigo daquele superior que aparentava austeridade, mas que, intimamente, era um “gentleman”! Que adorava tocar sanfona, gostava da música do Sérgio Reis “pinga ni mim” e de dançar com as zeladoras do Fórum. Bons tempos! Que saudade! Éramos felizes e não sabíamos...

 

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