• Centro de Preservação da Memória

O procurador de Justiça que tomou posse no interior do Estado

Valdecir Guidini de Morais

Diz o adágio popular que “se Maomé não pode ir à montanha, a montanha vem até Maomé”. O significado deste ditado, na verdade, retrata o fato de que Maomé, acostumado que era a subir ao cume das montanhas, para meditar, certa feita ficou impossibilitado de fazê-lo, porque no alto das montanhas seus inimigos poderiam eliminá-lo com facilidade. Então, Maomé, em seus cultos e orações (com tendências religiosas nada convencionais, pois negava a existência de Deus), dizia que a montanha estava presente, ao seu lado.

O meu caso, obviamente, foi bem diferente, ou seja, não havia, em absoluto, risco algum ao dirigir-me à capital do Estado para tomar posse no elevado cargo de Procurador de Justiça. Ocorre que na data aprazada, coincidentemente, eu receberia em Maringá, na Câmara Municipal, o título de cidadão benemérito; enquanto que a minha família teria a honra de ver o nome do meu saudoso pai – que foi um modesto motorista de táxi em Maringá e que criou com dignidade a sua prole – ser alvo de uma homenagem, dando-lhe o seu nome a importante avenida localizada em bairro nobre desta urbe. Assim sendo, fiz um requerimento, às pressas, consultando o Egrégio Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) se, eventualmente, poderia transferir a minha posse para Maringá, ou então, marcá-la para nova data.

Obviamente, imaginei que seria muita pretensão da minha parte, pois o CSMP realizava – e sempre realizou – suas reuniões (e as posses) em solenidade, na capital do Estado. Só que fui examinar a lei e constatei que esta não proibia que o ato se realizasse em outro local. A dificuldade, certamente, consistia, também, no fato de que todo o aparato cerimonial da Procuradoria – caso deferida a proposta – teria que ser transferido para Maringá. Logo, aqui deveriam estar presentes, para o fim colimado, nada mais nada menos do que o senhor procurador-geral de Justiça (presidente do Conselho), o corregedor-geral (membro nato) e mais sete procuradores de Justiça (eleitos pela classe – “interna corporis”). Além, é claro, do (a) presidente da Associação Paranaense do Ministério Público (que, necessariamente, faria uso da palavra), do secretário do Conselho e todo o “staff” do Cerimonial da Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ).

Fui, sem dúvida, deveras abusado e pretensioso, pois, um procurador de Justiça – que nem procurador de Justiça ainda era, pois não fora empossado – já querendo inovar e “dar as cartas” no Conselho Superior do MP. Sinceramente, quando fiz o requerimento, no local destinado ao pedido de deferimento, quase coloquei “Nestes termos, aguarda-se INDEFERIMENTO”.

Termo de posse de procurador de Justiça
Termo de posse, 2.4.2001

Porém, jamais imaginei que pudesse ser prestigiado da forma como fui. Recebi a notícia de que o meu pedido foi deferido, por unanimidade¹, e que todos estariam presentes em Maringá, sem ônus da minha parte e também sem custos ao erário público. Portanto, todos viriam às suas expensas (viagem, hotel, etc.), só que eu teria que recepcioná-los com uma grande festa. Quanto à festa, seria fácil, de somenos, porque ela – em face do recebimento da comenda – já estava programada. Como se diz na roça: era só colocar mais água no feijão.

Chegou o grande dia e, efetivamente, meus queridos colegas (meus superiores) em Maringá compareceram, transformando-se aquela noite de segunda feira, dia 2 de abril de 2001, em uma data memorável e inesquecível – principalmente porque ainda tinha ao meu lado a minha amada e saudosa mãe, Nair (como eu te amo minha mãe! e sinto muita falta e saudade de você... lágrimas...). A solenidade (do título) começou às 20:00 horas e foi muito demorada. Depois, teve a solenidade do nome da Avenida; e, por último, a posse. Confesso que chorei de tanta emoção e orgulho. Emoção pelo prestigiamento que tive dos meus caros colegas, amigos e familiares; e orgulho por pertencer a esta Instituição forte, independente e respeitada – que é o Ministério Público –, bem distante daquele Ministério Público de antanho, da antiga França, que defendia precipuamente os interesses dos reis e dos poderosos.

Posse do procurador de Justiça Valdecir Guidini de Morais
Valdecir Guidini de Morais recebe o título de Cidadão Benemérito de Maringá² | Acervo do autor

 

Posse do procurador de Justiça Valdecir Guidini de Morais
Posse do procurador de Justiça Valdecir Guidini de Morais³ | Acervo do autor

 

Pois bem! Concluídas as solenidades, já por volta de 24:00 horas, todos já estávamos ansiosos e partimos para a confraternização. Esta, efetivamente ocorreu à altura da estirpe dos ilustres convidados. Até música ao vivo e dança estava no “cardápio”. A festa foi boa, divertida, e deixamos o local quando já rompia a penumbra da madrugada.

Dois dias depois, lá estava eu, de terno e gravata, na labuta habitual, na capital do Estado. Recebi, inicialmente, uma carga acumulada de processos (recursos) para examinar e prolatar o parecer. Por isso, considerando que estava sozinho naquela cidade fria – e um povo igualmente frio –, resolvi trabalhar em um sonolento domingo à tarde. Deixei a minha caminhoneta estacionada na Rua Tibagi, local em que laborava nos dias úteis, juntamente com os ilustres procuradores de Justiça e promotores substitutos de segundo grau. Notei que, além do porteiro, somente eu habitava aquele prédio sombrio. Por volta das 14:00 horas, recebi um telefonema oriundo da potaria, cujo “porteiro” identificou-se como José. Ele perguntou-me se eu ainda ficaria trabalhando por algum tempo. Eu disse que sim, até por volta das oito horas da noite. Então, ele disse que queria dar um “rolê” pelo Passeio Público e que era para eu cuidar da portaria. Fiquei furioso, petrificado com aquela proposta indecente, ainda mais considerando a forma arrogante, de “curitibano”, que ele se referiu. Eu, já com grosseria, disse-lhe que não cuidaria de nada. Ele, o porteiro “inconveniente” disparou: “então eu vou sair e deixar o senhor trancado dentro do prédio”. Queria matá-lo! Matá-lo com as minhas próprias mãos. Disse-lhe: “pois bem, e quando eu quiser sair, “meu querido”, como vou fazê-lo?”. O porteiro abusado, disse: “arrume uma corda e desça de rapel, pois o senhor está apenas no sétimo andar”. Eu, fulo, respondi: “e se eu cair?”. Ele, com aquela voz de curitibano “leite quente”, respondeu: “se o senhor cair não tem perigo, pois vai cair na caçamba da sua própria caminhoneta, que está estacionada na rua, e cairá bem em cima da lona!”.

Pronto! Desci de escada mesmo, dois degraus em cada passada, pretendendo com o uso daquela corda – do “rapel” – enforcá-lo literalmente. Só que quando cheguei na portaria do famoso prédio da Rua Tibagi, fui recebido efusivamente por vários colegas procuradores de Justiça, em pleno domingo, inclusive sua excelência o senhor procurador-geral de Justiça, aquele mesmo que há poucos dias havia me dado posse em Maringá, os quais disseram-me, em coro (sob risos): “SEJA BEM VINDO AO SEGUNDO GRAU, MEU CARO GUIDINI”. Naquele dia, por motivos óbvios, não mais trabalhei, pois todos saímos dali e fomos comemorar a minha chegada na friorenta capital do Estado do Paraná.

(Publicado em 20.7.2020)


1. Ata da 4ª Sessão Ordinária do CSMP, de 12.3.2001: (...) Em razão de solicitação formulada pelo Senhor Promotor de Justiça VALDECIR GUIDINI DE MORAIS, para que sua posse no cargo de Procurador de Justiça seja realizada em cerimônia perante o eg. Conselho Superior do Ministério Público, no dia 02.04.01, por volta das 20h00min (vinte horas), na Comarca de MARINGÁ, o Conselho, por unanimidade, aprovou o pedido, cujo deslocamento e demais despesas deverão correr às expensas dos Senhores Conselheiros que para lá se deslocarem. (...)

2. Da esquerda para a direita: José Cláudio Pereira Neto, prefeito municipal de Maringá; Valdecir Guidini de Morais, homenageado com o título de Cidadão Benemérito de Maringá; Walter Luiz Guerlles, presidente em exercício da Câmara Municipal de Maringá.

3. À mesa, da direita para a esquerda: Hélio Airton Lewin, corregedor-geral do MPPR; Marco Antonio Teixeira, procurador-geral de Justiça do MPPR; Lineu Walter Kirchner, procurador de Justiça e membro do CSMP; Sérgio Rodrigues, juiz e diretor do Fórum; José Cláudio Pereira Neto, prefeito municipal de Maringá; Walter Luiz Guerlles, presidente em exercício da Câmara Municipal de Maringá.

Recomendar esta página via e-mail:
Captcha Image Carregar outra imagem