• Centro de Preservação da Memória

Médico ou advogado?

       
Conta o jurista José Afonso da Silva no seu “A Faculdade e Meu Itinerário...”, que seu amigo José Aboláfio após se formar em Direito passou a pleitear o cargo de advogado do Estado, cargo que ao tempo da Constituição Federal de 1946 era de livre nomeação e podia ser provido sem concurso. Ocorre que não havia vaga, nem notícia de que ela viesse a ser criada tão cedo. Mas, o candidato insistia tanto e tinha certa influência que o governador Ademar de Barros, embora o pretendente fosse advogado, o nomeou para o cargo de médico do Departamento de Presídios do Estado.

O nomeado protestou, era advogado e não médico; mas Ademar o confortou com a promessa de que aceitasse o cargo, que depois iria transferi-lo para o de advogado. O advogado então aceitou ser médico, e passou a aguardar sua transferência. Porém, como ela tardasse em vir, passou a se empenhar numa luta inglória para se desfazer do cargo de médico e passar ao de advogado, mas não conseguia. Recorreu aos amigos e a todas as autoridades com que pudesse contar; e nada. E assim se passaram vinte anos na condição incômoda de médico.

Um dia, desgostoso de tudo, confidenciou por acaso seu desgosto ao motorista oficial do governador Carvalho Pinto. Este se comoveu e se dispôs a interceder junto ao governador. E foi assim que, passados poucos meses, saiu a tal correção, embutida numa lei financeira, transformando o cargo de médico do Dr. José Aboláfio, do Departamento dos Presídios em cargo de advogado do Estado, lotado no Departamento Jurídico do Estado. Ocorre, porém, que decorridos já tantos anos, Aboláfio havia caído na aposentadoria compulsória, perdendo assim as vantagens que passara a pleitear com a conquista do novo cargo.

Rui Cavallin Pinto




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